sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Em solo japonês

Dia 13/09

01:00 - Passeamos por Narita mas ninguém se atreveu a comprar nada. Liguei para o Brasil avisando que cheguei bem, falei com minha irmã e minha tia, infelizmente não consegui falar com meu amigo Douglas em Sp, seu fone estava com defeito, apesar da distância fiquei pasmo com a qualidade da ligação, era como se falasse com uma pessoa a 1 metro de distância.

02:00 - Estou em frente à sala de embarque para os vôos domésticos de Narita, ainda faltam 90 minutos para decolarmos, uma vez mais o sono tenta alcançar-me, tenho fugido dele nas últimas 40 horas mas não é fácil continuar neste ritmo.

03:40 – Entramos no avião que nos levará a Nagoya, vôo Jl 3085 da Jal, é um 737-200 ou modelo equivalente, deve comportar umas 100 pessoas mas não está lotado, fiquei na poltrona 23K, finalmente consegui uma janela, situada no lado direito da nave um pouco atrás da asa., as últimas malas (bagagens não pessoas) estão chegando.

03:50 – São feitas as boas vindas em Inglês e Japonês, portas cerradas e nave sendo rebocada para começar a taxiar. Tiro minha última foto dentro de um avião, uma fila de naves ruma para decolar e estamos na terceira posição.

03:55 – Estamos na cabeceira da pista, aguardamos a permissão de decolar, um lindo 747 azul da KLM acaba de passar por cima de nós e pousa suavemente, permissão concedida, corrida iniciada, Narita passa velozmente pela minha janela, subimos, Tóquio ficou para trás.

04:10 – Olhando para o solo vejo muitas plantações nos subúrbios de Tóquio, um rio imponente desagua calmamente no oceano. Fazemos uma acentuada curva à direita. Estamos acima do fino cobertor branco de nuvens, nova correção de rota à direita, através de um buraco nas nuvens vejo dois grandes rios “abraçando-se” até tornarem-se um só. Bem ao longe, um conjunto de picos destaca-se acima das nuvens.

04:25 – São servidas as bebidas de praxe, mas não peço nada, tomei vários copos e garrafinhas de suco em Narita enquanto esperávamos.

04:40 – As nuvens vão ficando mais densas, perdi contato visual com o solo, acredito que aqui esteja chovendo.

04:50 - Iniciamos os preparativos de descida, furamos a barreira de nuvens, áreas verdes misturam-se com as construções, a seguir um belo estádio com refletores, sobrevoamos o centro de Nagoya, vejo dois grandes rios correndo paralelamente, sobre eles dezenas de pontes, as rodovias apresentam fluxo intenso mas sem retenções, novamente perco contato visual com o solo.

04:55 - Estamos agora sobre o mar, vejo uma dezena de cargueiros e navios de grande porte, as águas estão calmas, praticamente sem ondas. Tocamos o solo de Nagoya, flaps e reverso atuando, andamos calmamente pela pista, uma típica garoa paulistana me recebe, finalmente cheguei ao último aeroporto da jornada, mas ainda terei de viajar de carro para Okazaki.

05:00 – Saio por um corredor imenso, este aeroporto é quase tão grande quanto o de Narita, ele foi construído sobre um aterro feito no mar, da mesma forma que Santos Dumont no Rio de Janeiro, porém de escala e conforto beeeeem superiores. Nosso grupo de 8 pessoas se desfaz, cada empreiteira recebe seus novos contratados, trocamos os emails e telefones para que possamos manter contato. Verifico que minha mochila teve o cadeado forçado, o que acabou quebrando a alça do zíper, isso aconteceu entre Narita e Nagoya, em Tóquio estava perfeito, mas aparentemente não falta nada na bagagem.

06:30 – Chegamos a Okazaki, faço umas compras básicas (produtos de limpeza, higiene, alguma comida e um lanche do mac donald´s, gasto meus primeiros 3000 ienes, algo em torno de 50 reais, o contato da empreiteira me ajuda, se não fosse por ele cometeria minha primeira gafe, no Japão não podemos abrir as embalagens para ver seu conteúdo, olhando bem as coisas por aqui são mais baratas que eu pensava, os preços estão claramente expressos em numeração arábica o difícil é ler os rótulos. Após 48 hoas de viagens aéreas, terrestres e conexões em aeroportos estou exausto, mas ainda tenho de me apresentar no escritório da empreiteira, tirar as xerox dos documentos e receber a chave do apartamento.

07:30 – Formalidades cumpridas, eles sabem que aqueles que chegam do Brasil estão um farrapo, o negócio agora é comer e dormir, não necessariamente nesta ordem.

08:30 – Estou em casa, já coloquei as malas num canto, recebo algumas explicações de como funcionam as coisas por aqui (especialmente o chuveiro a gás e a máquina de lavar roupa), a pessoa que divide o apartamento comigo ainda não chegou do trabalho, como meu lanche (agora frio) do mac donald´s, conto até 1 e caio nos braços de morfeu.

Acordei no Japão

17:30 – No Brasil ainda estaria no dia 13/09, mas aqui no Japão já estou na manhã do 14/09, olho da janela do meu apartamento, avisto outros prédios idênticos, um conjunto de casas, uma concessionária de veículos, para os padrões japoneses moro num apartamento grande, são 3 quartos, cozinha e banheiro, um detalhe, aqui a latrina e o local para banho são aposentos separados. Moro no quarto e último andar do prédio, então posso dizer que estou na cobertura.

18:20 – De forma bem tímida o sol me recebe, as nuvens teimam em mandar uma chuva tênue, em alguns pontos o céu azul começa a vazar as nuvens, uma ave que não consigo identificar canta alegremente, escondida pelas folhas de uma árvore bem na frente da minha janela. Começo a desfazer minhas malas, por volta das 12:00 (hora local) uma pessoa virá buscar-me para ir à prefeitura e fazer os exames médicos.

20:30 – Acabei de desfazer as malas, sento no chão do meu quarto, que é forrado por um tatame parecido com uma esteira de praia, ponho a mão no bolso retiro uma moedinha de 10 ienes, outra de 100 ienes, reparo na porta corrediça de meu armário, subitamente uma lembrança de infância invade minha mente. Volto 36 anos no tempo, quando assistia ao desenho animado as aventuras de super dínamo, num dos episódios (que eu tenho gravado em VHS), a irmãzinha do herói perde sua moedinha de 10 ienes (não é possível comprar nada aqui com isso), mas a menininha está triste com a perda de sua “fortuna”, seu irmão ajuda a procurar e não acha nada, então resolve deixar uma moedinha dele no quarto da menina sem que ela perceba, mas o garoto é meio avoado e acaba coloncando uma moeda de 100 para a irmã, quando ela encontra a nova moeda fica felicíssima por estar “rica”, seu irmão, por outro lado, fica fulo da vida por ter entregue mais dinheiro que ela perdeu. Não tenho como não deixar de reparar quão irônica a vida consegue ser, estou agora no Japão, vivendo uma cena de um animê da minha infância, sinto-me como o menino Mitsuo, por via das dúvidas olho para a janela novamente, realmente nenhum Godzila caminha nas ruas, nenhum herói gigante usando colant vermelho corta os céus. Bom eu só olhei para tirar a dúvida, vai saber se outra de minhas lembranças de infância estivesse se materializando.

21:00 – Ligo a tv, encontro uma porção de programas de auditório, tipo gincana de perguntas / respostas, outra coisa comum são os programas de culinária, alguns noticiários, ponho em ordem os papéis e anotações que fiz para quando tiver um computador e publicar um blog. Tomo um banho e faço a barba, como eu precisava disso, por último reúno os documentos e preparo-me para a rotina burocrática da chegada.

Um comentário:

Ricardo disse...

Falaaaa barba...po to lendo as coisas aqui e ta vindo tudo na minha cabeça como um filme...dahora

Agora lendo seu blog com as horas ao lado me fez lembrar o seriado 24hr nao sei pq